Quando eu te vi de beca todo bonitão na última sexta-feira, foi como se eu tivesse vendo o mesmo menininho cabeçudo, com 6 anos de idade, no palco do Lemos Cunha. Naquela época você era mais novinho que os demais da turma, já que tão novo entrou logo pro maternal e entrou pro colégio mais legal do bairro.

Você, que demorou tanto para andar (se arrastando pelo carpete – cinza escuro, com formigas), aprendeu logo a “ir ao banheiro” sem ajuda, sem sujar as fraldas. Chupava dedo, teve que usar aquelas terríveis botas ortopédicas, tava sempre com algum resfriado, alergia. Mesmo assim, vingou na natação e até bateu uma bolinha no time de futsal do clube.

Os anos vão passando e, não importa, quem veio primeiro sempre olha pro mais novo com o mesmo olhar da infância. Um belo dia você descobre que a casa não é mais só sua, que o sorvete precisa ser dividido e o espaço no sofá também, assim como a hora pra assistir o desenho animado, jogar Alex Kidd e acessar à Internet. Os mais velhos levam muito tempo para aprender que aquela criatura que vem pra ficar não é o vilão que te rouba a mãe e o pai mas alguém que vai te ensinar o que há de mais precioso no mundo: o amor.

Eu olho pra você triste e me dá uma vontade de te dar a mão, como fazíamos quando crianças. Me dá vontade de dar uma moca em quem te sacaneou, em quem te fez perder o riso. Eu quero brigar, quero mostrar pro garoto bobo da escola que não é assim que a banda toca, que você é meu irmão e que eu sou muito brava!

A gente cresceu e parece que a vida perde o encanto dos dias de inocência. A gente aprende que, embora chutar bundas e torcer pra que o pinto do vilão caia seja o nosso maior desejo, a banda toca de outra maneira. A gente aprende que desejar o mal não funciona, mas que continuar a cruzada é fundamental. O que levamos dessa vida, seja lá pra onde formos?

Eu tenho saudade do futebol aos domingos, no campo de terra da Portuguesa; tenho saudade do Skinny com feijão; das tardes corridas com Cultura Inglesa; das conversas no corredor do prédio. Saudade da piscina com “nojinho”, das idas pra ACM com direito à suvaco cabeludo e risadas. De nós dois imitando os motoristas de ônibus, se perdendo na Sendas, se achando, com sorvete de nata. Tenho saudade do som do cavaquinho, do Fundo de Quintal, da Beth Carvalho com Zeca Pagodinho, tenho saudade de uma alegria que reinava quando você vinha da escola técnica.

Há uma semana eu reencontrei o mesmo garotinho da infância, meu maior companheiro e amigo dessa vida. Eu vi naquele palco os mesmos olhos escuros brilhantes, o mesmo sorriso largo. Tive o maior orgulho em gritar “é meu irmão”, mesmo que ninguém tivesse ouvido já que a música era muito mais alta do que qualquer berro. que eu pudesse dar. Eu vi o menino que ficou reprovado no terceiro ano, que acordou tão cedo tantas e tantas vezes, que ralou anos para estar ali, simbolicamente concluindo uma faculdade. E depois vi o mesmo garotinho lamentar uma perda, provavelmente a mesma sensação que eu tive quando perdi meu estojo de canetinhas na terceira série. ERA MEU, por que alguém tomaria?

Algumas coisas mudam, deixam de existir. Mas a essência, eu não tenho dúvidas, ela tá sempre ali.

kel e dan=)