10 Feb 2010

saudade com sabor de groselha.

Post por Raquel às 07:00 em nostalgia

Meu primeiro bolo de aniversário, aquele da Emília, tosquinho, de uma época em que pasta americana nem pensava em existir (transformando qualquer comidinha em uma obra de arte); o meu primeiro instrumento musical – uma cítara daquelas infantis; minhas primeiras bonecas… Tudo ganhava uma proporção que só ele sabia dar. As piadas racistas, os discursos políticos (que exaltavam o Brizola) e os comentários futebolísticos (que em nada influenciaram a minha escolha, pois se dependesse dele, eu seria tricolor). Meu avô chegava de supetão lá em casa, com a bolsa carteiro a tiracolo – mais tarde se tornou uma pochete, ambas de couro, e nos saudava sempre de maneira alegre, de modo que a gente só fosse entender tudo mais tarde. Ele chegava sempre com algum mimo, um presentinho, uma tranqueira que nos fazia feliz e nos fazia os mais importantes de todo mundo. Nos fazia especiais.

Os avós, quando não te criam sendo praticamente sua segunda mãe ou seu segundo pai, são os responsáveis pelas aventuras mais gostosas da infância. Filha de nutricionista, raras eram as vezes em que eu podia almoçar salgadinhos da lanchonete ou friturinhas engordativas. Ou comer balinhas, sorvete e tomar groselha. Mas quando ele nos buscava na escola era certo pararmos na Garota da Ilha pra levar um tanto de coxinhas e bolinhas de queijo.

Um belo dia a gente cresceu e coincidentemente parece que o avô cresceu também. O sorriso se tornou mais raro, as visitas também. Nesse momento, comecei a sentir saudades.

E é assim que a gente começa a entender os por quês da vida. Começa a entender os silêncios e partidas repentinas. Começa a assimilar que todo mundo tem defeitos, inclusive os seus ídolos e o meu avô era meu ídolo. Ele com aqueles olhos claros, cabelo devidamente penteado pra trás, engomado, seeeeeeempre contando suas histórias maravilhosas dos tempos da farda. Quantas vezes ouvi sobre a viagem ao Japão, que nos rendeu uma coleção horrorosa de louças?

Quando penso no meu avô, não consigo mais pensar nas coisas tristes mas somente naquele rosto enrugado e sério que se transformava quando a gente corria pra cumprimentá-lo. Também penso no apartamento que pra mim, pequenina, parecia um mundo sem fim, com tantos móveis e caixas pra apenas um morador. Lembro perfeitamente da sensação de se perder por aqueles metros quadrados; sonhava com o dia em que teria o meu apê e levaria toda a mobília de lá, afinal meu avô não se importaria. Eu penso nisso tudo quando escuto a palavra “avô”: bala Soft, Rockita, Avon, Skinny, massa de pastel, forma de bolo, Bahia, farinha com ovo mole, banana na comida, Rita, Cairu, Fortaleza.

O coração sempre perdoa, né?

2 Responses to "saudade com sabor de groselha." | Add yours »

  1. Feb 10, 2010 @ 11:04 {}

    que bonito, raquel.
    lembrei do meu avô e rolaram umas lagriminhas aqui.

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  2. Feb 10, 2010 @ 11:12 {}

    e lá fui eu chorar no trabalho.

    bonito mesmo!

    [Reply]

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