Por Rodrigo Pontual
Mão na cabeça! Mão na cabeça! Invasão no Quilombo!
Calma… ninguém tomou de assalto esse podcast.
Me chamo Rodrigo Pontual e, a convite do meu amigo Pe, estou dando minha humilde contribuição ao Quilombo Moderno. E como o dono daqui é um dos caras que conheço que mais entendem de música, dá pra imaginar o quanto fiquei feliz com o convite.
Mas chega de babação. Vamos voltar no tempo.
Muita gente considera os anos 80 uma década morta para a música. Discordo totalmente. Principalmente no que se refere ao rock brasileiro. Foi nessa década que ele realmente passou a existir. Sem desmerecer a Jovem Guarda e os Mutantes, mas a década emblemática pro rock brasileiro foi a de 80.
Vivíamos o fim da ditadura e a molecada começou a fazer barulho de qualidade (às vezes duvidosa, é verdade).
A banda que mais representa a qualidade dos anos 80 são Os Paralamas do Sucesso. Herbert, Bi e Barone, com sua mistura de ska, rock, punk, e mpb, sempre fizeram discos ótimos. Começaram em Brasília e depois depois se instalaram no Rio, o que também ajudou bastante na carreira da Legião Urbana. Amigos desde que moravam na capital federal, foram os Paralamas que “apadrinharam” a Legião e os apresentaram à gravadora na época. A banda veio pro Rio e se agigantou, graças ao enorme talento de Renato Russo e do entrosamento com os companheiros de banda, Marcelo Bonfá e Dado Villa-Lobos, o que compensava as limitações técnicas dos músicos. Eles eram uma máquina de criar músicas deliciosamente pop, sem perder a qualidade das letras. Mesmo anos após o término da banda, em decorrência da morte de Renato Russo, o número de fãs só aumenta e a devoção à banda é algo fora do normal.
Brasília também deu origem a outra banda obrigatória em qualquer lista dos anos 80: Plebe Rude. Com letras politizadas e pegada punk, nunca tiveram o menor pudor em falar mal do governo militar que ainda existia no país. Impressionante como uma das melhores bandas da década é tão excluída pela mídia.
As bandas engraçadas também tiveram espaço nesse período. As duas principais foram a Blitz e João Penca e Seus Miquinhos Amestrados. O João Penca era mais escrachado, desde o visual até às letras. Praia, mulheres, noitadas e tudo que caracterizava o Rio de Janeiro fazia parte das letras. Além dos vocalistas Selvagem Big Abreu, Avelar Love e Bob Gallo, a banda também revelou o músico Léo Jaime.
A Blitz também caía pra esse lado do humor, mas com letras mais românticas – mas não menos debochadas – compostas pelo vocalista Evandro Mesquita. Outra futura famosa que fez parte do grupo, foi Fernanda Abreu, uma das backing vocals da formação original
Ainda aqui no Rio, um dos maiores letristas da história do país começou e terminou sua carreira. Cazuza integrou o Barão Vermelho de 1981 a 1985 e faleceu em 1990, mas foi responsável por algumas das melhores músicas da década. A banda tinha uma referência blueseira forte e em vários momentos lembrava os Rolling Stones.
Como diria Renato Russo em uma de suas músicas, “os bons morrem jovens” e isso se aplica aos dois maiores letristas brasileiros do final do século.
O som progressivo também se fez presente, não em grande escala. Duas bandas tinham essas influências de forma descarada: RPM e ZERO. A primeira, do “galã” Paulo Ricardo, abusava dos sintetizadores e teclados, numa referência direta do synthpop que era feito lá fora. Mesmo com carreira curta, o disco de estreia deles está entre os melhores da década. A segunda, menos conhecida, do ótimo vocalista Gulherme Isnard, bebia da fonte clássica do progressivo, como Pink Floyd e Genesis. Também não durou muito, tendo lançado apenas dois discos nos anos 80, mas ambos são muito bons.
Existem outras bandas que merecem destaque, como os paulistas Ultraje a Rigor e Gang 90 & Absurdetes e a gaúcha Engenheiros do Hawaii.
O Ultraje – a melhor entre essas três – misturava a fanfarronice com temas sérios. Conseguia fazer letras sobre temas atuais da sociedade brasileira com um bom humor único. A Gang 90 era totalmente o oposto. Tinha como principal inspiração a new wave, todas aquelas cores e breguices da época. Ainda assim tinha boas músicas, algumas regravadas anos depois, compostas pelo jornalista e fundador do grupo Júlio Barroso, falecido em 1984. Já o Engenheiros é um caso a parte. A banda está em atividade até hoje, mas, inegavelmente, sua melhor fase foi do seu início, em 1985, até o começo da década seguinte. Humberto Gessinger deve ser um cara bem difícil de se trabalhar, visto a enorme quantidade de músicos que passaram pela banda, mas isso não o impediu de compor boas músicas que se tornaram referência do rock brasileiro.
Pra finalizar, mas duas bandas de São Paulo: Titãs e Ira!
Independente do atual momento das duas bandas (o Ira! ainda existe?), ambas foram muito boas na década de 80. Os Titãs lançavam um disco bom atrás do outro, sempre com sua agressividade e rebeldia características. Essa agressividade foi deixada um pouco de lado com s saída de Arnaldo Antues, mas a carreira da banda já estava consolidada.
O Ira!, por sua vez, teve uma história bem mais conturbada que os colegas (apesar do notório apreço dos Titãs por drogas), Mas esses problemas aconteceram mais nos anos 90. Na década anterior, eles lançaram quatro excelentes discos.
Uma curiosidade envolvendo as duas bandas, foi a troca de bateristas. Charles Gavin era, inicialmente, baterista do Ira!, enquanto André Jung tocava com os Titãs. Antes das bandas estourarem eles trocaram de posto e um foi tocar na banda do outro.
Já escrevi demais. Ouçam e façam sua viagem pessoal no tempo. Certamente algumas dessas músicas trarão boas recordações a vocês.
Os Paralamas do Sucesso – Patrulha Noturna
Legião Urbana – Química
Plebe Rude – Censura
João Penca e Seus Miquinhos Amestrados – Calúnias (Telma Eu Não Sou Gay)
Blitz – Betty Frígida
Barão Vermelho – Maior Abandonado
RPM – Revoluções por Minuto
ZERO – Quimeras
Ultraje a Rigor – Inútil
Gang 90 & Absurdetes – Telefone
Engenheiros do Hawaii – Toda Forma de Poder
Titãs – O Pulso
Ira! – Dias de Luta
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