“Crônica & Cômica” ou “Os (quase) Maravilhosos Devaneios do Nigro”
Todo mundo gosta de reclamar da vida, essa é a segunda verdade universal (a primeira é um pout-pourri das diversas Leis de Murphy, see food aê). E nem adianta esse muchocho, esse sorrisinho amarelo de pessoa super de bem com a vida, dizendo “Eu não! Minha vida é maraviounderful! Não tenho nada pra reclamar…” – aliás, você é a PRIMEIRA pessoa a reclamar quando as coisas não vão bem.
E reclamar da vida é coisa de gente cricri e não existe nada de errado nisso, ora pois! Vejam o meu caso, por exemplo. Teoricamente eu sou uma pessoa legal, tranquila, quase um Joseph Climber (porém sem tantas virtudes fora as minhas drogas habituais), e esse tipo de pessoa que costumo ser (na teoria) está sujeita a certos tipos de situação que fariam o mais casto dos castos (oi?) perder o juízo e ser, olha só: cricri.
Como escolhi estudar ao invés de fugir da escola pra jogar futebol, hoje eu ando de ônibus. E no transporte coletivo é que você encontra figuras pitorescas, como a senhora que não tomou banho, mas caprichou no ‘Le Desmantele D’Avon’. O mano que escuta ‘Solta Essa Porra’ no celular, SEM fone de ouvido, às 7 da matina. Os tipos são muitos, mas ontem eu perdi a paciência com uma dupla dinâmica de ‘Marias’ que não parava de conversar do meu lado. Bicho, se eu acordei cedo e tenho a habilidade ninja de dormir nos bancos macios (cof, cof) do coletivo… PORRA! Eu quero aproveitar pra dormir no trânsito (rá, acho que essa é a única vantagem de andar de ônibus).
Acontece que as vizinhas (sim, elas eram vizinhas) tinham assunto para ir e voltar do trabalho e lá se foi a lista. Passando da nota baixa do Franciscoaldo, a primeira menstruação da Jaquilene e todo o medo da dona de ver a filha grávida depois do carnaval. No meio do caminho, o celular de uma toca ‘chupa que é de uva’, ela atende, fala berrando e desliga. Daqui a pouco, toca de novo, ela atende, berra e desliga. Enquanto isso, a outra mastiga um biscoito Globo de boca aberta… meu, aquilo faz mais barulho que uma britadeira.
Juro que me controlei o máximo que pude, mas não aguentei. Quando levantei para descer do ‘Inferno Móvel’, peguei meu telefone e fingi que estava atendendo uma ligação, eis o diálogo:
“- E aí bicho, tudo bem? Comigo tá mais ou menos… cara, tentei dormir o caminho inteiro, cansado do show ontem e tal. Mas tem duas VELHAS aqui na frente que fizeram curso de matraca, uma reclama do marido que larga os pen-te-lhos no sabonete, outra tá morrendo de medo que a filha dê pro cara que entrega o gás, mas toca ‘chupa que é de uva’ no celular. E vou te contar, pelo cheiro da colônia, elas devem ser cafetinas, afinal esse ônibus passa pela Glória, e lá como você sabe é a Travecolândia… pois é cara. Mas é a vida… se eu tivesse ouvido seus conselhos, hoje seria jogador de futebol na europa e não teria que passar por esse tipo de coisa às 7 da manhã.”
(…)
A cara delas me olhando enquanto eu falava isso em pé do lado, fica por conta da imaginação de vocês. Mas, respondam na boa: Eu fui cricri? Acho que não… isso é legítima defesa, bicho.
Uatchatcha!
Bruno Nigro é músico, jornalista, flamenguista, técnologo, bicheiro, forrest gump, assistente para assuntos aleatórios, entre outras atividades não-declaráveis publicamente… mas ele concorda que devia mesmo ter fugido da escolha pra jogar futebol.